Mensagem de Gian Martinez, Young Planner 2008,:
"Na minha saudosa época de universitário abusava de Baudelaire para justificar a minha impossibilidade de ter um carro. Gostava de dizer que na "arte do flaneur" existia uma consciência íntima sobre a vida e que era por isso que eu fazia tudo a pé ou de ônibus. Aquilo que no princípio era só uma desculpa charmosa para a minha falta de grana acabou consolidando muitos princípios importantes para o meu trabalho como planejador. Ali exercitei minha leitura sobre a subjetividade das coisas.
Assim que cheguei a Cannes percebi que esse era um lugar para um planner, fundamentalmente, flanar. Mas do que ver idéias bacanas queria entender o que estava por trás daquilo desde um ponto de vista mais amplo e subjetivo. O meu atual período de férias me dá a rara liberdade de não me sentir obrigado a ter agora nas mãos o ponto final. Mas divido como vocês o que tenho pensado até então.
No final das contas Cannes é um lugar para festejar as idéias "fora da caixa". O grande ponto hoje é definir e entender de que caixa estamos falando. E o festival algumas vezes apresentou um paradoxo nesse sentido mostrando que nem sempre a caixa que esteve na pauta das discussões é necessariamente a mesma que esteve na pauta das melhores idéias.
Em uma ponta estavam os seminários e/ou workshops cuja grande maioria se limitou a uma discussão de formatos. Ali, pensar fora da caixa era sobre pensar um formato novo. Por isso muitas das suas discussões se limitavam às diferentes ferramentas: internet, mobile, entretenimento, etc.
Na outra ponta estavam as melhores idéias em cada uma das categorias. A sua maioria não estava limitada a um pensamento de forma. Ali, o pensamento fora da caixa trazia uma concepção nova das coisas. Uma idéia tão poderosa que poderia percorrer facilmente diferentes formatos. Nesses casos claro que a forma é importante. Aliás, fundamental. Porém como um pensamento pragmático de como um formato pode tornar um conteúdo ainda mais poderoso muitas vezes virando ele mesmo o próprio conteúdo.
Costumo dizer que os designers tem bom faro para planejamento pois cedo compreendem a definição da Gestalt. Isso permite estruturar o pensamento entre forma e conteúdo – ética e estética, entendendo como ambas equilibram os mecanismos de estímulo funcionais e emocionais. Claro que o que sobressai aos olhos das pessoas é a forma do objeto. Mas ela só esta ali a serviço de um conteúdo, com uma função clara.
O que vi de melhor no festival trazia esse pensamento no seu dna: HALO 3, HBO, LEAD INDIA, MILLION, UNIQLO. São cases que trabalharam forma de maneira inteligente mas que não se limitaram a ela.
A nós, planners, cabe a consciência de trabalhar as diferentes partes para que o resultado final seja realmente fora da caixa. Já sabemos que ela não precisa nem ser uma caixa. Mas para entender o que ela vai ser o primeiro passo é definir o que tem dentro."


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